27 ago2012

 

Aconteceu na última sexta (24.08) a primeira etapa do  Nova Música Brasileira -3, um festival que pretende revelar os novos talentos da música, totalmente idealizado e executado pela OSC, agência que tem em seu currículo outro projeto musical famoso, o Rio Music Conference.

Apesar do clima ameno, a noite começa um pouco tensa por conta de um tiroteio que tomou conta da Maré na semana anterior.  Logo na entrada da  favela, o motorista da van que leva a equipe se apressa em abaixar os vidros, prática que demonstra respeito aos “donos” do local. Situações estranhas  e conformadas de quem já se  acostumou a viver numa cidade partida. Entrada liberada, a Lona Cultural do Complexo da Maré, lindamente dirigida por Alberto Aleixo, é um oasis que oferece cultura como forma de educação e lazer. Sem demora a apreensão é diluída em expectativa musical.

O evento teria início às 19h. O lugar, no entanto, só estaria cheio depois das 21h – “Aqui começa tudo muito tarde, o pessoal não tem o hábito de chegar cedo” explica o produtor local diante da preocupação com o número de pessoas presentes, que mal chega a 15 perto das 20h.  A cantina serve caldinho de feijão e uma deliciosa porção de batata frita crocante e sequinha a honestos R$ 3. Se algum dia passar por lá, coma. Não existe melhor! Mas vamos à música. A noite parece dominada pelas mulheres, nada menos que 3 das 5 bandas que tocariam têm meninas em sua formação: Canto Cego e Algoz com suas vocalistas e Mortarium, um power trio de doom metal.

Perto das 21h finalmente tem início  o primeiro show. Com Elza no vocal, Márcio na bateria, Diogo nas guitarras e Jorge no contra-baixo, a Algoz, uma banda de rock original e bastante atuante da Maré contagia o público com suas afinações mais graves que o normal e timbres bastante saturados de guitarra e contrabaixo. A bateria seca lembra o Metallica e o vocal de Elza também é bastante potente. Apesar de a lona ainda não estar cheia, o público delira com o refrão que até agora ecoa na memória: “ quem é o seu algoz?” pergunta a vocalista cada vez mais a vontade em cima do palco.  O próximo grupo a se apresentar é a Canto Cego. Roberta Dittz é uma fofa  que apaixona logo de cara. Você simplesmente fica hipnotizado pela delicadeza de seus gestos aliados a energia feroz com que se movimenta. A banda traz poesia e rock um tanto quanto aflitos. No meio da apresentação, a vocalista parabeniza todos os participantes e desaprova o sistema de classificação que se assemelha a uma competição, afirmando que  na música não existem ‘ganhadores ‘ ou ‘perdedores’. É ovacionada e a banda então continua massacrando (no bom sentido) o público com seu som potente e  enérgico até o fim.  As trocas de palco são rápidas e mostram uma produção afiada. Logo em seguida, a Café Frio faz uma apresentação  morna e não chega a empolgar. Já a Levante, outra representante das favelas, anima os presentes com seu rock progressivo. Feito raro, normalmente bandas que fazem um som mais marcado e simples são  melhor recebidas. Prova que os jovens das comunidades têm bom gosto musical e não engolem qualquer porcaria pop. É formada por Bim (bateria), Paris (baixo), Mayco (Guitarra) e Reginaldo (guitarra e vocal) e tem uma forte influência de Alice in Chains, Pearl Jam e Nação Zumbi,  fazendo uma mistura com o peso de Seattle mas passeando pelos caminhos urbanos brasileiros. Infelizmente, não conseguiram completar todo o show. Depois de  3 músicas restavam apenas 3 minutos para o encerramento e Reginaldo decide então por encerrar a apresentação. Se justifica dizendo que, com suas canções de mais de 6 minutos, seria impossível cumprir o prazo estabelecido. Os últimos, ou últimas a subirem ao palco são as meninas do Mortarium. O trio traz uma cozinha bem azeitada e um  convidado que mais parece uma mistura de professor de química com fã do Sepultura. Vivi Alves (baixo e vocal), Julie Sousa (bateria] e Tainá Domingues (guitarra e vocal gutural) pareciam não se importar muito com o resultado da contagem de votos, preferindo se divertir e aproveitar o momento, talvez conscientes da dificuldade de aceitação maior do som pesado que fazem.  A ruiva Vivi era só sorriso e transbordava de felicidade. Aliás, as três lançavam olhares cúmplices umas para as outras o tempo todo, revelando a intimidade do grupo. Banda que bate cabeça unida permanece unida para todo o sempre!

No momento da contagem de votos a  casa já está cheia e ninguém parece se importar com vencedores ou classificados. Do lado de fora da lona muitos copos de cerveja, jovens roqueiros e os integrantes das bandas conversando e abraçando uns aos outros. Se alguém estava ansioso pela chance de se apresentar no Imperator abrindo para o Detonautas, não se percebia. Finalmente chega o momento de revelar os vencedores. “Pela contagem do público” cantarola o Mestre de Cerimônia fazendo suspense, “a Algoz levou a melhor. Pelo voto dos jurados, no entanto, quem se classifica é a Canto Cego.  Somando todos os votos, os vencedores são… tchan tchan tchan tchan… CANTO CEGO!” grita ele, entre palmas  e vaias de todos os torcedores.

Resumindo, a noite o que se viu foi uma celebração entre amigos, música de qualidade altíssima e gente se divertindo. Se há tristeza pela mazela diária não transpareceu. Que venham as próximas noites de NMB!

 

(Julia Ryff – redação OSC)

 

 

 

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