13 jun2012

 

As cerca de 850 pessoas que acompanharam as palestras do TEDx saíram do Forte de Copacabana atordoadas com tanta informação. Atordoadas no melhor sentido, levando pra casa muita coisa pra pensar e muita reflexão a fazer.  Apesar do tema central – sustentabilidade – as abordagens foram diferentes e transmitidas sob o véu das próprias experiências e ótica particular. Alguns palestrantes emocionaram outros não fizeram tanta diferença, mas todos passaram uma ideia. A família Cousteau participou com a presença do filho e neto do lendário oceanógrafo. Ambos, obviamente encharcados de influência marítima e tendo vivido boa parte da infância a bordo do navio Calypso, defenderam o oceano e todos os seres que habitam suas profundezas. Os ‘Cousteaus’, palestrando separadamente e em dias diferentes, transmitem tanta intimidade com o mar que a gente acha que vão sair dali e pular direto no Atlântico, onde uma baleia os aguarda para levá-los pra casa. O austríaco abrasileirado Hans Donner foi um dos primeiros convidados a falar. Seus 18 minutos renderam uma bela homenagem à Steve Jobs e, claro, seu indefectível relógio não ficou de fora. Sem entender, alguém da plateia solta um suspiro “Ele veio no TED pra falar do bendito relógio?!”. Marina Silva discursou sentada, citou  Sartre, falou de seu passado e condenou a sociedade do consumo, afirmando que vivemos a “doença do excesso, onde valorizamos mais o ‘ter’ que o ‘ser’” . Foi aplaudida de pé.

 

Entre tantas palestras, nós da OSC elegemos as que mais gostamos seguindo os critérios ‘surpreendente’, ‘informativa’, ‘comovente’ e chegamos a resultado unânime: Dia 11 – Jessica O. Matthews, dia 12 – Laurence Kemball-Cook e a au concour ( e quase superstar) Severn Suzuki. Abaixo o resumo de cada uma.

 

 

Jessica O. Matthews

A carismática americana de ascendência nigeriana poderia muito bem ser brasileira. Não apenas pela aparência física, como também pela espontaneidade e simpatia. Se arriscando em português soltou algumas frases que logo ganharam o público, completamente fisgados de empatia. A ‘ideia que merece ser espalhada’ da moça é de uma simplicidade tão óbvia que a gente não entende como nunca ninguém pensou nisso antes. Junto de outros 3 amigos de Harvard inventou a ‘soccket’, uma bola de futebol 95% reciclável que gera e acumula energia a cada chute. Apenas três minutos do jogo são suficientes para 3 horas de luz. O ‘momento eureka’ aconteceu quando, em uma viagem à África, Jessica percebeu que não importava onde estivesse, se na pobre Nigéria ou nos ricos E.U.A, o que nenhum povo deixa de fazer é  jogar futebol. E mesmo em circunstâncias adversas sempre se dá um jeito de ‘inventar’ uma bola, seja usando meias velhas ou papel pregado com durex. “Brincar, afinal de contas, é universal” resumiu. Percebendo a possibilidade de unir responsabilidade com diversão, o grupo enxergou nisso uma ótima plataforma para mudança. “É possível falar em sustentabilidade com alegria” afirmou, justificando a criação. Entoando o refrão “Kick a ball and play some music!”, Jessica acendeu uma lâmpada demonstrando a eficiência de seu invento no palco do Tedx Rio afirmando que apenas alguns minutos de jogo são suficientes para carregar um ipod. A soccket, afirma “pode melhorar a vida das 1.600 bilhão de pessoas que vivem sem eletricidade no mundo”. Por enquanto, ela não pode ser adquirida, apenas doada. Por 60 dólares se pode ‘comprar’ uma exemplar que será entregue à algum país da África, América Latina, Ásia ou Caribe.  Até o final do ano, entretanto, será possível pagar o mesmo valor  e  levar uma bola ( ou usina de força, como preferir) pra casa e outra será enviada à região de sua preferência. Jessica foi ovacionada. Mérito de sua simpatia e genialidade de sua invenção. “Falem comigo, podem chegar perto, eu sou alta portanto fácil de encontrar. E sou simpática!” avisou. Mais aplausos e muita admiração. Visite o site –  http://unchartedplay.com/home.html

 

 

Laurence Kemball-Cook

Pedindo que todos ficassem de pé e em seguida dessem um pulo, Laurence anuncia: “pronto, produzimos energia suficiente para 1 hora de luz!”. Na mesma linha de ideias inusitadas que dão bons resultados, o engenheiro britânico Laurence Kemball-Cook, trouxe um piso que  armazena a energia dos passos. Isso mesmo, nós, que fazemos parte das formiguinhas que saem do metrô todos os dias rumo ao trabalho,  amantes das vitrines nos shoppings,  apaixonados por música que frequentam os festivais, somos todos usinas de força em potencial. Fundador e CEO de uma empresa que cria projetos de tecnologias cinéticas, a Pavegen Systems, Laurence criou um bloco de pavimento que converte a energia do movimento de quem passa sobre ele em energia elétrica. A primeira aplicação comercial do Pavegen foi a instalação de 20 placas ao longo de uma travessia entre o Estádio Olímpico de Londres e o shopping Westfield Stratford City. Segundo o próprio inventor, o grande fluxo de pessoas pelo local deve ser suficiente para atender metade da demanda energética da área externa do shopping. “Uma pessoa dá em média 150 milhões de passos durante sua vida, imagine o potencial”, enfatiza o jovem britânico, cujo piso deve ser atração nos Jogos Olímpicos de 2012 de Londres, já que será instalado em estações de metrô do Reino Unido.  Pense nessa ideia: cada passo que você dá pode gerar energia limpa, basta ter o chão adequado sob seus pés.

 

 

Severn Suzuki

Uma das palestras que mais criou expectativa foi da ambientalista Severn Suzuki. Tendo ‘calado a boca do mundo’ aos 12 anos, quando falou para uma plateia de chefes de estado na ECO-92, a canadense  fez jus a ansiedade quando  emocionou a plateia ao entrar ao vivo, em videoconferência diretamente de sua casa, no arquipélago de Haida Gwaii, no Oceano Pacífico, Canadá, com o filho no colo. Hoje com 32 anos, se formou em ecologia e biologia evolutiva e criticou a falta da ação dos governantes sobre o tema meio ambiente: “Vinte anos depois da Eco 92, não estamos nem perto da sociedade que nós deveríamos ser / A estratégia global atual é focada no lucro. Números que extrapolam nossa imaginação”.  E continuou “A cada conferência, a questão da sustentabilidade tem tido menos atenção. Percebi que, se queremos mudanças, devemos buscar nós mesmos, não esperar pelas autoridades. Nossas vozes importam”. Reclamando da falta de compromisso de seu país, que abandonou o Protocolo de Kyoto embora tenha assinado o documento, com coragem foi em frente “Vinte anos atrás, eu tinha orgulho da minha nacionalidade. Hoje, tenho vergonha.” Sobre seu discurso, completou “Em 20 anos, fiz muita coisa, mas aqueles cinco minutos em que falei na ECO 92 foram alguns dos mais importantes da minha vida. Até hoje recebo cartas falando sobre aquele momento. Tudo isso por causa do amor das pessoas. Seria fácil ter me desencorajado ao longo dos anos, mas hoje sou mãe e não posso fazer isso. Faria qualquer coisa por meus dois filhos. É por causa das crianças que vamos reconectar as causas e efeitos. O amor por nossas crianças irá trazer isto de volta” E finalizou para uma plateia completamente ganha, emocionada e entregue: “Em 2012, precisamos de uma mudança de paradigma para mudar nossa sociedade e melhorá-la para nossas crianças. Vamos atravessar o fogo e os oceanos!”  Nem uma única pessoa das 500 que lotaram o auditório Humanidade ficou impune aos cerca de 10 minutos de palestra que poderia facilmente ser confundida com um discurso. Todos de pé, batendo palmas, convencidos e entusiasmados. Podíamos até ouvir seus pensamentos: Severn Suzuki para presidente do Planeta!

 

*foto Miguel  Sá

(Julia Ryff – redação OSC)

 

 

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